A certeza de onde vem o nosso refúgio: uma reflexão no Salmo 11

O Salmo 11 é um salmo feito por Davi. Faz parte do primeiro livro (Salmo 1 ao Salmo 41), que é dividido em cinco livros. Neste primeiro livro, a maioria dos Salmos é composta por orações provenientes de uma situação de aflição, pontuadas por declarações de confiança em Deus. E é, dentro de uma situação de angústia ou aflição, que este Salmo foi escrito. Os estudiosos argumentam que o pano de fundo para este Salmo está em 1 Samuel 18.9-19.7. Nestes textos, nós temos Saul se enciumando de Davi e intentando matá-lo e, em paralelo, o quanto o Senhor era com Davi e lhe sustentava, além de lhe garantir vitórias contra os seus inimigos. No início do capítulo 19, vemos Jonatas, grande amigo de Davi, o orientando a fugir, diante da perseguição de Saul. Este Salmo é uma resposta para aqueles que, perseguidos, devem colocar sua confiança em Deus e em sua justiça. Vamos ao texto?


1 No Senhor me refugio. Como então vocês podem dizer-me: "Fuja como um pássaro para os montes"?

2 Vejam! Os ímpios preparam os seus arcos; colocam as flechas contra as cordas para das sombras as atirarem nos retos de coração.

3 Quando os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo?

4 O Senhor está no seu santo templo; o Senhor tem o seu trono nos céus. Seus olhos observam; seus olhos examinam os filhos dos homens.

5 O Senhor prova o justo, mas o ímpio e a quem ama a injustiça, a sua alma odeia.

6 Sobre os ímpios ele fará chover brasas ardentes e enxofre incandescente; vento ressecante é o que terão.

7 Pois o Senhor é justo, e ama a justiça; os retos verão a sua face.

  

Reflexão:


No versículo 1, temos o Salmista afirmando onde está seu refúgio. Diante de uma situação calamitosa, onde a resposta natural seria fugir, o salmista afirma que Deus é o seu refúgio. Algo importante a se destacar aqui é que aqueles que disseram, dizem ou poderiam dizer para Davi fugir, estavam ou poderiam estar preocupados com ele. Quando nos deparamos com alguma aflição ou vemos alguém que alguém que amamos passando por um momento de angústia, nossa reação é procurar por respostas ou por meios naturais de sairmos daquela situação ruim. Então, podemos entender a preocupação dos conselheiros de Davi como algo real, humano e digno de observação. Nós poderíamos e podemos agir da mesma forma, diante das perseguições e perigos que nos cercam. Porém, a resposta de Davi é dizer que o refúgio dele não está no monte, num lugar de proteção, fosse uma fortaleza ou o Monte Sião. O refúgio dele estava em Deus. É importante notar que o Espírito do Senhor estava sobre Davi.1 Samuel 18.12 diz que Saul temia a Davi, porque o Senhor era com ele e se tinha retirado de Saul e o versículo 14 diz que Davi se conduzia com prudência em todos os seus caminhos e o Senhor era com ele. Aquele que possui o Espírito Santo reconhece que, diante das adversidades e perigos, a melhor saída é voltar-se pra Deus. Davi havia experimentado o que só Deus poderia fazer na vida dele por ter o Espírito Santo nele. Nós sabemos o que Cristo fez por nós e experimentamos diariamente o poder da sua obra gloriosa, através do Espírito Santo que habita em nós. Ainda que sejamos aconselhados com conselhos humanos e que muitos desses conselhos tenham algum proveito, devemos nos refugiar em Deus, buscar a presença dele, em santidade, em oração e na palavra. Não são poucas as vezes que nos refugiamos em algo que não é o Senhor e sofremos com isto. Que deixemos o Espírito Santo de Deus nos conduzir para o melhor lugar de refúgio em uma situação angustiante: o próprio Deus.


Além disso, como podemos ver nos versos 2 e 3, a preocupação era pertinente: havia um perigo real. Nestes versículos, podemos notar duas situações de perigo iminente:


  1. Armas preparadas para contra os retos de coração (versículo 2);

  2. A destruição dos fundamentos (versículo 3);

O Salmista observa duas situações acontecendo ou passíveis de acontecer. A primeira era que queriam matá-lo e essa morte, como diz o versículo 2, seria sorrateira, pelas sombras. Ele não tinha ciência de quando o perigo viria. Sabia que o perigo existia e que poderia ser atacado, mas não quando; A segunda era a destruição dos fundamentos. Os fundamentos do reino eram os princípios básicos da sociedade teocrática na qual Davi estava inserido, responsáveis pela ordem social, garantir a gestão da nação de Israel de uma forma justa, bem como gerir a sua economia e outros fatores. Diante das atitudes más e desastrosas de Saul, não apenas a vida de Davi, mas como de todo o povo, estava em perigo real. Provavelmente, era este o cenário que poderia levar os conselheiros de Davi a argumentar que seria melhor para ele fugir para as montanhas quando tivesse oportunidade. Nós, hoje, também vivemos num cenário de instabilidade política e econômica. Nós também vivemos numa sociedade onde o perigo está à espreita e que nunca sabemos de onde virá. Mas, é exatamente diante dessas situações catastróficas, que o Salmista nos leva a buscar Deus como o nosso refúgio. O nosso emprego, a estabilidade do país, a resolução de problemas sociais ou de segurança, nada disso, pode nos garantir a segurança que só pode ser encontrada em Deus, pois além de guardar o nosso corpo, ele guarda a nossa alma. O próprio filho do Salmista, anos depois destes eventos, vai dizer, no Salmo 127, que “se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”. Davi reconhece sua dependência total de Deus e que, somente Ele, pode ser o refúgio numa sociedade violenta, caída e longe de Deus. Os retos de coração, aqueles que não compactuam com a sociedade caída, precisam saber que sofrerão perseguições por aqueles que são ímpios, mas, diante destas perseguições, devemos nos refugiar no Senhor. Observe que as situações descritas no versículo 2 e 3 são situações que fogem completamente do controle do Salmista. Nós gostamos de ter o controle da situação, mas reconhecer que não temos o controle, porque ele pertence somente a Deus, é um dos primeiros passos para buscar o Senhor como o nosso refúgio e, não são poucas as vezes, em que o Senhor usa de situações desagradáveis para que nos aproximemos mais dele e confiemos no que só Ele pode fazer. Não são poucas as situações que acontecem conosco para que busquemos o Senhor como nosso refúgio.


Diante de todo este cenário, encontramos no versículo 4 o motivo, a resposta de Davi para se refugiar em Deus: saber que o Senhor reina. O seu refúgio não está em saber que o Senhor lhe dará força para resistir e derrotar os inimigos; não está em saber que Deus lhe fez um vencedor. O seu refúgio em está à Deus, confiando que Ele, e somente Ele, tem poder e controle sobre tudo e que o Seu poder, o Seu controle, a Sua glória, lhes bastam. A confiança de Davi estava em Deus e em Sua justiça. Ele sabia que podia confiar em Deus porque ele é justo. Nos versículos de 4 a 6, Davi elenca, diante das ações dos ímpios, as ações de Deus que asseguram que o Senhor é o seu refúgio:


  1. O Senhor está no seu santo templo e nos céus o Senhor tem o seu trono: a segurança e a confiança de Davi está em saber que Deus está no controle e, que diferente dos poderosos de seu tempo, em especial Saul, o trono, o reinado, a soberania e o poder de Deus eram dos céus, superiores a qualquer poder presente nesta terra. Davi podia se refugiar em Deus porque só Ele tem verdadeiramente todo o poder para mandar e desmandar, fazer e deixar de fazer. Enquanto o trono de Saul se estendia por Israel, o trono do Senhor se estendia por toda a terra e céu. Nada escapa do Seu olhar, nada está fora do seu alcance. Ele governa soberanamente sobre tudo e todos. É na glória do Senhor que Davi se refugia. E, também nesta glória, devemos nos gloriar. Devemos nos refugiar no Senhor porque Ele é glorioso, majestoso, poderoso, porque Ele tem o controle sobre tudo. A Ele tudo pertence.


  1. Seus olhos estão atentos e ele sonda, examina todas as pessoas da terra: Davi sabia que, por Deus ter o controle e a soberania sobre tudo, ele sabia o que estava acontecendo. Ele sabia das atrocidades, das injustiças, do que Saul planejava fazer, do que acontecia com Israel. A segurança de Davi era em saber que o Senhor conhece o coração dos homens, inclusive o seu. O fato de saber que o Senhor era com ele, e que seguia o Senhor em todos os seus caminhos, lhe conferia a certeza de que ele era um reto de coração, um justo. E ele fazia isto porque tinha fé no Senhor. Nós, hoje, pelo Espírito Santo que habita em nós, sabemos que fomos regenerados para uma nova vida e que fomos justificados pela graça, mediante a fé que temos em Cristo Jesus. Somos justos, não pelos nossos méritos e feitos diante de Deus, mas pelo mérito de Cristo, pela sua justiça.


  1. O Senhor põe à prova o justo e o ímpio: De frente a esta realidade, de que os olhos do Senhor estão atentos a tudo e que Ele conhece o coração de todos os seres humanos, Davi, por saber que o Senhor é justo, julgará com justiça. Ele não tem o ímpio por impune, antes o julgará segundo a sua reta justiça. E a justiça de Deus, é justa, porque Deus, de fato, é único justo e que julga plenamente com justiça. É baseado na justiça de Deus, que Davi se refugia nele. É baseado nesta justiça de Deus, para nós, Cristo, que podemos nos refugiar em Deus. Pois sabemos que Ele virá com a sua santa e justa ira contra os ímpios, porém nós, que fomos alcançados pela justiça de Jesus, quando postos a prova, seremos aprovados, não porque fomos bons ou melhores que os ímpios, mas porque Ele teve misericórdia de nós. Podemos nos refugiar em Deus porque ele é justo.


  1. O Senhor que punirá os ímpios pelas suas atitudes: por ser justo, Deus punirá o ímpio, o perverso, aquele que ama a violência. O Senhor abomina este. Outras versões usam a expressão “a sua alma odeia”. O uso de termos como fogo e enxofre remete ao ocorrido com Sodoma e Gomorra. O julgamento dos ímpios poderia ser visto na história ou na eternidade. Qualquer que fosse o tempo, a parte do cálice deles, seria o juízo da parte de Deus, vindo através da condenação. Para o justo, o cálice da benção, mencionado outras vezes por Davi em outros salmos. Para o ímpio, a perdição. O amor à impiedade é uma característica do ímpio, que também pode ser traduzida como amor ao pecado. O ímpio ama o pecado. O justo sabe que o pecado desagrada a Deus e vive sua vida de maneira a não pecar, ainda que isto seja inevitável. Ambos, justos e ímpios, terão sua devida e justa recompensa dada por Deus.

 

Davi, ao longo de todo este salmo, sustenta que pode se refugiar em Deus porque:


  1. Deus governa sobre tudo;

  2. Deus tem o controle de tudo;

  3. Deus é forte e poderoso para fazer o que ele bem entender;

  4. Nada do que acontece, acontece sem um propósito;

  5. A Deus pertence a glória;

  6. Deus é justo;

 

Nós podemos nos refugiarmos e confiarmos em Deus porque Ele está no controle de tudo. Tudo que existe, existe porque Deus permite existir. Nada que acontece conosco ou pode acontecer está fora do alcance dele. Mesmo as adversidades servem como instrumento para seu louvor e glória. Podemos estar seguros e refugiados, não pelo o que podemos fazer ou pelo o que Deus pode nos conduzir a fazer, mas, sim, porque Ele é quem ele é. É com base na sua justiça de retribuição, é com base no Seu poderio, no Seu controle, na Sua soberania que podemos confiar plenamente nele, que podemos nos refugiar nele. A resposta de Davi em se refugiar em Deus não era porque Deus poderia fazê-lo vencedor nas batalhas ou torná-lo superpoderoso, mas sim porque Deus sabe de tudo e ele não; porque Deus pode fazer tudo e ele não; porque Deus é dono de tudo e ele; porque Davi dependia de Deus e Deus não depende dele. Davi glorificou a Deus, porque reconheceu a sua dependência de subsistência em Deus. Que possamos ser como Davi. Nos refugiarmos no Senhor e buscarmos seu auxílio por Ele ser quem Ele é. O reto, mencionado no versículo 7, contemplará a face de Deus, ou seja, estará diante dele, na sua presença. Davi tinha essa esperança de, um dia, poder estar diante de Deus. Este é um privilégio que somente os justos poderão ter hoje. Para nós hoje, somente aqueles que foram justificados por Jesus poderão estar diante da presença do Senhor, lhe prestando a honra e glória que lhe são devidas.


Aplicações:


  1. Muitas vezes, ouvimos mais o que as pessoas ao nosso redor têm para nos dizer do que ouvimos o que o Senhor nos diz através da Sua Palavra. Geralmente, isto acontece porque não estamos confiando plenamente em Deus e na sua justiça, onde preferimos confiar no nosso braço ou no outro. Que possamos confiar em Deus e em sua justiça, acreditando que somente nele podemos encontrar o refúgio necessário para resistirmos e não sucumbirmos a este tempo mau.


  1. Desemprego, fome, violência, insensibilidade, perda de referências, inversão de valores. Muitas são os fatores que demonstram que a nossa sociedade está caída e corrompida. Olhando para o exemplo de Davi, onde buscaremos nosso refúgio? Na promoção de políticas públicas? Na promoção de empregos? Em força ostensiva policial? Se não buscarmos refúgio no Senhor, é inútil fazermos qualquer coisa e/ou buscarmos refúgio em qualquer coisa proveniente da nossa humanidade caída. Nosso refúgio deve estar no Senhor, na sua Palavra. É através dela e de seus valores que podemos causar um impacto relevante neste mundo. Moral, sem espiritual, não passa de mera justiça humana, que não possui valor algum diante de Deus, pois todos pecaram e não é por atos de justiça que somos justificados diante dele.


  1. Diante de injustiças, perseguições, queremos nos vingar e executar nossa justiça sobre o outro, seja pagando na mesma moeda ou desejando que o Senhor retribua ao ímpio o mal que ele nos causou. O Senhor, a seu tempo, fará a sua justiça da maneira que Ele quiser fazer. Confiemos em Deus e esperemos Ele agir da maneira que ele quiser agir e, não somente isto, mas também aceitemos a justiça de Deus.


  1. Davi não confiou no que Deus poderia fazer através dele diante de seus inimigos, mas sim em quem Deus era e no que, diante de Seus atributos e caráter, Ele poderia fazer. Diante de uma má teologia presente no nosso tempo, somos levados a acreditar que devemos nos refugiar em Deus porque ele nos dará força para vencermos os gigantes, que seremos vencedores nas batalhas do dia a dia e que, ao final disso, mostraremos para aqueles que não acreditaram em nós que nós conseguimos e que eles deveriam se arrepender de terem duvidado de nós. Mas não é isto que a Bíblia nos ensina. Ela nos mostra que dele, por ele e para ele são todas as coisas. O nosso refúgio em Deus deve ser porque nós confiamos e desejamos que só Ele, em tudo, deve ser glorificado. Ele é glorificado nas nossas alegrias, nas nossas tristezas, nas nossas perseguições, nas nossas aflições, nas nossas vitórias e nas nossas derrotas. Tudo, absolutamente tudo, deve ser feito para a glória dele e, em tudo, há um propósito que é e deve ser direcionado para a Sua glória. Nada do que acontece conosco é sobre nós. É sobre Ele ser exaltado e glorificado através de nossas vidas.


Que Deus abençoe sua vida.

Dodô Ramos @dodosramos89


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