A restauração de todo Pedro: uma reflexão no Evangelho de João
A reflexão de hoje foi feito pelo meu grande irmão e amigo, Matheus Diniz, baseada em João 21:15-17. Que você possa ser abençoado e impactado por esta mensagem:
Texto:
15 Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, você me ama realmente mais do que estes? " Disse ele: "Sim, Senhor, tu sabes que te amo". Disse Jesus: "Cuide dos meus cordeiros".
16 Novamente Jesus disse: "Simão, filho de João, você realmente me ama? " Ele respondeu: "Sim, Senhor tu sabes que te amo". Disse Jesus: "Pastoreie as minhas ovelhas".
17 Pela terceira vez, ele lhe disse: "Simão, filho de João, você me ama? " Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez "Você me ama? " e lhe disse: "Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo". Disse-lhe Jesus: "Cuide das minhas ovelhas.
Introdução:
1) Contextualização do Evangelho de João.
O Evangelho de João foi escrito entre 70 e 100 d.C. Não existem provas suficientes para dizer a data da escrita com precisão, mas estima-se que tenha sido pós anos 70 pela referência ao Mar de Tiberíades ( nome passou a ser usado com frequência para o mar da Galiléia perto do final do 1° século e a referência ao martírio de Pedro entre os anos 64 e 66 d.C. O livro provavelmente foi escrito em Éfeso( Ásia menor/ região da atual Turquia e centro urbano da época do império romano).
Não há dúvidas sobre o autor do livro. Além do título do evangelho temos mais alguns pontos relevantes para esta conclusão.
O autor do livro se refere como apóstolo(1.14; 2.11; 19.35).
Um dos 12 discípulos (o discípulo a quem Jesus amava 13.23; 19.26; 20.2; 21.20;).
João, filho de Zebedeu e a proximidade entre Pedro e o discípulo que Jesus amava.
Evidências externas provenientes dos pais da Igreja ajudam a sustentar esta identificação.
O livro foi escrito com um propósito de revelar que Jesus é o Messias prometido e o filho de Deus. Destinado a um público tanto de Judeus como de gentios que viviam em Éfeso. Ele aborda com certa frequência sobre os costumes Judaicos e sobre a geografia da Palestina e traduz para o grego alguns termos em aramaico(1.38), e isso mostra a leitura de não Judeus.
Ele apresenta Jesus como o verbo encarnado, em contraposição aos pensamentos grego, estoicismo (Grupo de filósofos gregos que acreditavam que a chave para a felicidade era viver de modo racional e em harmonia com a natureza. Segundo eles, um homem realmente sábio era indiferente à dor ou ao prazer ) e gnosticismo ( O gnosticismo é um sistema de correntes filosóficas religiosas sincréticas que teve como base filosofias pagãs da antiguidade) oferecendo aos leitores uma real ideia de que Jesus era o Messias prometido, o filho de Deus e que , crendo nEle , podem ter a vida eterna. Apresenta Jesus como Deus.
2) Contextualização do texto exposto:
Jesus já tinha sido crucificado pelos romanos sobre a influência dos judeus e tinha ressuscitado.
Ele estava aparecendo aos seus discípulos para confirmar a sua ressurreição e reunindo eles novamente, pois haviam se dispersado por acharem que a morte de cruz tinha sido o fim.
Pedro é tomado por uma dor e sentimento de culpa ou remorso pelo fato de ter negado a Cristo.
Pedro vai pescar na ociosidade pela demora da aparição de Jesus aos discípulos , ou até mesmo pela dúvida se isso de fato aconteceria, se levanta e vai ao barco e alguns discípulos o seguem (mostrando a influência e relevância de Pedro entre eles).
Em uma aparição similar ao chamado inicial dos discípulos, Jesus diz onde eles devem lançar a rede, uma cena com um certo tom nostálgico, mas profundamente simbólica.
3) Desenvolvimento e aplicação do texto:
Antes de começar a mensagem em si gostaria de abordar uma nova percepção deste texto. Muitos pregadores e comentaristas mais antigos costumam usar esse texto de forma que haja uma distinção entre termo “amor” usado por Jesus nas suas 2 primeiras perguntas e nas respostas de Pedro, mas isso não se harmoniza com a característica literárias do evangelho de João.Vamos abordar uma nova perspectiva que já é mais comum no debate acadêmico (teológico). Ex: D.A. Carson e Luiz Sayão.
Nas duas primeiras perguntas, Jesus usa o verbo grego AGAPAÔ e Pedro responde com o verbo PHILEÔ. É comum ver sermões e estudos afirmando que Jesus pergunta para Pedro “tu me amas” com o verbo AGAPAÔ porque Jesus queria saber se Pedro a amava com um amor Divino/ Perfeito/ Sincero , mas Pedro responde com um “sabes que te amo” com o verbo PHILEÔ, o que daria um sentido de “gostar”.E é muito claro para nós que amar e gostar são sentimentos distintos , mas o ponto da nossa reflexão não é esse e sim o de que esses termos são intercambiáveis , um recurso do autor do texto para não ser repetitivo.Vemos em outras passagens desse mesmo evangelho e no Novo Testamento que os verbos são usados de forma que confirme a minha posição. Por exemplo:
João tem o hábito de dizer a mesma coisa repetindo-a com uma mera variação estilística. Veja por exemplo o texto de João 3.3,5 e 7.34 e 13.33. Isso significa que uma variação de termos em João deve ser examinada com cautela.
Há 142 ocorrências do verbo AGAPAÔ no NT, sendo 32 delas em João. Já PHILEÔ apresenta em João 12 das 26 ocorrências do NT. Uma observação atenciosa dos dois termos no quarto evangelho mostra que os dois são intercambiáveis. Os dois verbos se referem ao amor de Deus pelo homem (3.16 e 16.27), ao amor do Pai pelo Filho (3.35, 5.20), falam do amor de Jesus pelos homens (11.5 e 11.3), do amor entre os próprios seres humanos (13.34 e 15.19) e do amor humano por Jesus (8.42 e 16.27). Para se ter uma ideia de como os termos são usados no evangelho de João, é importante notar que o amor que os homens têm pelas trevas é AGAPAÔ (3.19) e amor do Pai pelo Filho é phileo (5.20)
A maioria dos estudiosos concorda que a conversa entre Jesus e Pedro foi em aramaico (ou talvez em hebraico). Nesse caso, não haveria distinção de palavras no contexto linguístico semítico. A conhecida versão siríaca (um tipo de aramaico) traduz os dois verbos por um só termo.
Quando Pedro responde sempre afirmativamente a cada pergunta, sua resposta não faria sentido se Jesus quisesse saber que tipo de amor o apóstolo Pedro tem por ele. Todavia, a maior dificuldade é que Jesus acabaria “aceitando” esse “amor inferior” de Pedro sem fazer qualquer observação relevante sobre isso no final do texto. Isso não faz sentido no contexto da restauração do nosso querido Pedro.
Diante destas observações relevantes e objetivas, a maioria das versões bíblicas e comentários eruditos têm rejeitado a conhecida distinção popular entre os dois verbos gregos. Eles são apenas sinônimos em João 21.
Há fortes evidências de que o verbo AGAPAÔ estava em proeminência em toda literatura grega por volta do século IV a.C em diante, como um verbo padrão para “amar” e PHILEÔ ganhou um significado extra de “beijar” em determinados contextos.
4) Aplicações do texto:
4.1. Reconhecimento de Pedro que “tu sabes”, apontando para a onisciência de Cristo sendo revelada a ele.
O foco central da passagem está na declaração final de Pedro na última pergunta que Jesus faz quando ele afirma que sabia do amor que Pedro sentia por Ele , pois Cristo sabia de TODAS as coisas. Essa era a real intenção de João quando muda o verbo de AGAPAÔ para PHILEÔ, enfatizar o conhecimento de Cristo das provas que ele deu desse amor no passado, a ênfase está na certeza que realmente Cristo sabe todas as coisas e não só pela caminhada que teve com ele , mas também pelo fato de Jesus ser o próprio Deus. Naquele momento se deu a restauração de Pedro. O momento em que ele deixa de ser um discípulo questionador, que agia por impulso da sua personalidade forte e reconhecia toda a sabedoria e conhecimento de Cristo, o Filho de Deus , o Verbo encarnado.
O autor do livro não coloca essa passagem no final de seu trabalho de forma aleatória ou sem propósito. João ao destacar este diálogo entre Jesus e Pedro, mostra a confirmação prática de tudo o que ele começou a escrever em seu evangelho, Cristo é o próprio Deus.
4.2. Restauração de Pedro pela Graça de Deus e como essa graça nos restaura.
Quero contextualizar melhor o cap 21 para tratar da restauração de Pedro. Logo no início Pedro é chamado de Simão (seu nome anterior ao chamado de Cristo) pelo autor do evangelho, embora toda história também relatada por este até o momento, apresente a trajetória vivida por Pedro ao lado do Messias, como o momento em que afirma contundente diante de Cristo que jamais o abandonaria e que estaria disposto a morrer por Ele. Pedro, então, se encontra em uma situação que é oposta a tudo que ele tinha garantido que não faria, fazendo parte do cenário de rejeição a Cristo ao negá-Lo. Pedro certamente estava amargurado diante de tudo que havia ocorrido, talvez até desacreditado de tudo o que viveu, voltando para sua antiga, uma vida sem Cristo, sem propósito. Antes via-se um discípulo convicto que não poderia negar ao mestre, mas agora está Simão a pescar. Há de se destacar que Jesus aparece aos discípulos, estando Pedro, João( autor do evangelho abordado) e mais alguns discípulos, mas eles não o reconheceram. Em seguida, Ele aponta o lado do barco para que eles pudessem jogar a rede, como já fizera algum tempo antes e pescaram maravilhosamente. Assim, souberam que era Jesus. Comeram com Ele e não precisavam perguntar coisa alguma. Ele se aproximou de Simão e o recebeu sem nenhum tipo de julgamento ou condenação o restaurando pela sua maravilhosa Graça e pelo seu infinito amor. Jesus faz perguntas que apresentam a Pedro o cenário da sua queda, que o faz lembrar do momento onde ele nega a quem jurou lealdade. Assim Jesus com todo seu amor restaurou o coração de Pedro com uma simples pergunta: “Pedro, tu me amas?” E por três vezes Ele o faz esta pergunta.
Pedro ao responder de maneira convicta em um momento de fragilidade e sofrimento interno, se mantém firme ao dizer: “Senhor, eu te amo”. Na última resposta ele declara que Jesus sabia de todas as coisas, coisas estas, como conhecer o seu coração e que Pedro o amava de verdade, mas era um ser falho e sujeito a tropeços. Jesus conhecia exatamente onde ele precisava de restauração, sabia onde ele precisava ser restaurado. Esse conhecimento de Cristo sobre todas as nossas necessidades de restauração e onde precisamos ser transformados por Ele é também uma certeza que a sua Graça irá nos alcançar mesmo estando com um coração destruído como o de Pedro. Ele nos traz a certeza que através da sua infinita Graça transformará o nosso coração e sentimentos mais íntimos que possam nos afastar Dele. Esse processo é individual e todos podem ter a certeza de que Cristo vai chegar ao seu encontro oferecendo restauração. Não porque merecemos ou somos bons, mas sim porque a sua Graça através do seu amor infinito jamais deixará os seus sem uma transformação e entendimento da obra de restauração que Deus tem pelo seu povo.
4. 3. “Apascente as minhas ovelhas” o chamado inicial de Pedro, mas que se estende a nós para o cuidado com a igreja de Cristo e o cuidado uns com os outros.
Alguém pode perguntar o que a restauração de Pedro tem a ver com apascentar as ovelhas de Cristo, e afirmo que uma coisa está totalmente ligada a outra. Nós cristãos somos chamados a anunciar essa Graça restauradora que encontrou a Pedro. Esta é a notícia de que há um Deus preocupado com um ser tão falho como nós e que seu infinito amor nos restaura completamente. A Bíblia, a palavra revelada do nosso Deus, tem o poder de tirar nossas máscaras, mostrar quem realmente somos e como precisamos abundantemente de Deus em nossas vidas. Essa passagem também evidencia que Pedro, um apóstolo, referência na história da igreja, um homem conhecido por sua firmeza e seus discurso onde pregava a mensagem do evangelho da graça, era na verdade um homem frágil e inseguro que só foi capaz de exercer tais obras pela Graça imerecida de Deus.
Diante disso, afirmo com plena certeza em meu coração que assim como Pedro, ao receber graciosa restauração, não podemos viver como se o evangelho não nos impactará transformando efetivamente nossas vidas. Embora ao longo da nossa caminhada alguns contratempos venham existir, não devemos abandonar e esquecer do chamado a anunciar essa maravilhosa Graça a todos. Nossos problemas e pressões externas não são maiores que a mensagem da cruz e a esperança de uma vida eterna com Cristo.
Nossa motivação não está em reunirmo-nos uma vez por semana e participar de um culto como um rito religioso, como crentes nominais e dominicais, mas nossa motivação e serviço maior é levar as Boas Novas a todos os perdidos e cansados, anunciando a mensagem da esperança que transforma o mundo. O que a passagem nos ensina é que assim como Jesus resgata e chama Pedro, apesar de todas as coisas que fez e o direciona a apascentar Suas ovelhas, Ele nos chama para a pregação do evangelho e cuidar dos Seus filhinhos como um pastor ama e cuida de suas ovelhas.
Esta é mensagem que devemos passar adiante como igreja. Este é o discipulado ensinado por Cristo. A nossa missão como seus discípulos transformados que levam adiante a oferta da Graça de Deus.
5) Conclusão: O avanço do Evangelho e como isso impacta nossas vidas.
Só podemos levar essa mensagem a diante ou cumprir com essa missão quando entendemos que há um Deus que criou um plano de salvação para um povo amado. Plano esse que está presente e que nos é revelado ao entendermos cada ponto abordado nessa reflexão. Que revela um Deus com um propósito, que conhece todas as coisas, tem completo controle e que todas as coisas estão debaixo de sua poderosa mão, Ele que está disposto a nos encontrar na praia, a oferecer sua Graça e nos restaurar , como o próprio Pedro afirma em 1 Pedro 5:10:
“O Deus de toda a graça, que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido por pouco tempo, os restaurará, os confirmará, os fortalecerá e os porá sobre firmes alicerces.”
Firme nesta verdade e diante da certeza de um Deus restaurador, nós não podemos ficar inertes. Nossa ação, capacitados por Ele é levar adiante a mensagem da esperança ao mundo, anunciando o que Cristo fez por nós em nossa praia e que todos somos como um certo Pedro.
Por Matheus Diniz
@matheusdiiniz_
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