Em defesa da Trindade: contra o Docetismo, Modalismo, Gnosticismo e outras hererias

Faço parte de um grupo de whatsapp, dentre muitos outros, em que o administrador do grupo - que é pastor itinerante - faz inúmeras postagens, sobre vários assuntos, porém não costumo dar muita bola. Num dia, resolvi um dos áudios e, para minha surpresa, me surpreendi com o conteúdo dos áudios. Eram quatro áudios onde, por mais de 30 minutos, o pastor argumentava contra a Trindade. Mostrei esses áudios a um grande, Miguel Guimarães, que egressará no seminário junto comigo, e ele, muito zeloso, não conseguiu ficar sem responder o referido pastor, respondendo as afirmações apresentadas pelo. Tanto afirmações feitas, quanto as respostas, podem ser acompanhadas no texto abaixo, feito por Miguel. Espero que seja de grande proveito e que você possa aprender mais e, cada vez mais, firmar a sua crença na Trindade:

 

A paz do Senhor, irmãos!

Ouvi os áudios do pastor e não pude ficar quieto mediante a compreensões tão erradas sobre a natureza de Deus, revelada nas Sagradas Escrituras.

Eu creio, assim como um reformador do século XVI, que para termos uma noção plena de quem somos precisamos primeiro do conhecimento de Deus. Sem conhecermos corretamente esse Deus, não conheceremos verdadeiramente quem somos e, sem termos esses conhecimentos básicos, não poderemos ser salvos. E porque não podemos ser salvos sem conhecer devidamente a Deus? Pois Jesus disse que, se conhecermos a verdade, seremos libertos! (Jo 8:32). Mas que verdade é essa, afinal? É qualquer verdade? Não! A verdade de que Jesus é Deus, como o contexto nos mostra. Jesus fala em Jo 8 sobre a sua divindade. E também não podemos ser salvos sem conhecer a Trindade, pois nosso coração é maligno e corruptamente enganoso, e sempre queremos fazer de Deus a nossa própria imagem e semelhança; Sempre queremos muda-lo para Ele estar de acordo com os nossos padrões;  sempre queremos colocar Ele na nossa caixinha, onde O podemos controlar. Vemos isso por toda a história da Bíblia. O povo de Israel viveu adorando ídolos desde o começo até o fim e nós não somos diferentes e, se não reconhecermos que a Trindade é verdade, fazemos da Bíblia mentirosa, pois ela, claramente, ensina a Trindade. E, se a Bíblia é mentirosa, não há salvação para nós, pois somente estas páginas possuem o que precisamos saber para sermos salvos. E eu vou  mostrar isto para os irmãos.

Quero aproveitar esse momento para, dizer para os irmãos não acreditarem em mim, se eu não disser o que as Escrituras falam! A Bíblia é a nossa ÚNICA regra de fé e prática e não o que qualquer um fala; somente ela é inerrante, infalível e suficiente; Ela é a Palavra de Deus e só podemos falar as Palavras de Deus se pronunciarmos o que as Escrituras ensinam corretamente. Dito isto, vamos aos textos.

 

1ª afirmação: Os atributos comunicados de Deus foram perdidos na queda;

 

Resposta:

A isso respondo que não foram perdidos na queda. A imago Dei (imagem de Deus) ainda reside no homem. O homem ainda tem uma moral interna; ele sabe quando faz algo errado. A questão é que ele não deseja fazer o certo por estar com sua natureza maculada. Os atributos morais permanecem no âmago do homem, mas esses atributos morais estão obscurecidos pelo pecado; eles estão maculados pela sujeira do pecado, mas não perdidos (Rm 2:14-15). O homem caído é como um retrato que reflete a imagem de Deus, mas um retrato totalmente adulterado, como se o pecado tivesse manchado o retrato com tinta, a ponto de não conseguirmos identificar com clareza essa imagem de Deus, pois o homem se tornou mau. O homem ainda é capaz de praticar "bondade", segundo os olhos humanos, mas, se ele for sincero consigo mesmo, interiormente achará motivações erradas para as ações boas que pratica, como por exemplo: para que as pessoas o vejam fazendo uma boa ação e, a propósito, esse era o maior erro dos fariseus condenados por Jesus. Eles estavam fazendo "boas ações", mas internamente Jesus sabia que eles estavam podres (Mt 23:23-39). Dessa forma, qualquer ação maculada pelo mínimo ponto de pecado, perante Deus, se torna uma ação ainda pecaminosa, mesmo que seja somente no coração, vide o sermão do monte em Mt 5-7.

  

2ª afirmação: Deus não é criatura, portanto, não pode ser chamado de pessoa e por não poder ser chamado de pessoa não 3 pessoas na Trindade;

 

Resposta:

Eu concordo que Deus não é uma pessoa. Deus é um ser Sobrenatural, Soberano, o Criador de todas as coisas, o ser mais Elevado, mais Poderoso e etc. A questão é que Deus é 3 pessoas distintas também! Deus é um relacionamento entre 3 membros distintos do qual chamamos de Trindade: O Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo. Eles tem a mesma substância, são co-eternos, tem os mesmos atributos, trabalham pra um só propósito, estão no mesmo patamar, ou seja, ninguém é maior que ninguém. Eles são um único Deus e Deus é 3 pessoas. Não dá pra se entender logicamente a natureza divina; afinal, somos seres limitados e, além disso, maculados pelo pecado. Não podemos cair no mesmo erro de muitos do século 1 e dos subsequentes que tentaram entender tudo, pois eles chegaram a ponto de dizer que precisavam de um conhecimento superior para conhecer a Deus, pois as Escrituras não lhes eram suficientes. A essa heresia foi dado o nome de gnosticismo. Aconselho aos irmãos a estudarem  sobre.

Vamos ver alguns versículos, onde vemos claramente, que a Escritura afirma a divindade das 3 pessoas distintamente: Cristo - Jo 8:28; Jo 8:58; Pai - Jo 8:40-42; Espírito Santo - At 5:3-4.

Podemos também ver os 3, no mesmo lugar e separados, em Mateus 3:16-17, onde o Pai do Céu fala “este é meu Filho amado em quem em comprazo” e o Espírito pousa em forma de pomba em Jesus. Então, claramente os 3 estão separados em espaço, não no relacionamento Trinitário, um do outro nessa narrativa e como vimos anteriormente a Escritura também diz que todos são Deus!

E, se estes testemunhos do NT não forem o suficiente, podemos ir para o AT e acharemos a Trindade lá também. Em Gn 1:26, disse Deus: FAÇAMOS o homem a NOSSA imagem conforme a NOSSA semelhança. Esse texto indica que o Pai fala com os seus co-iguais (Jesus e o Espírito) para criar os homens de acordo com a imagem e semelhança Deles e não faz sentido ver esse “façamos” como o Pai falar com os anjos, pois não somos imagem e semelhança de anjos, mas de Deus. Vemos também que o Espírito “pairava sobre a face das águas” na criação (Gn 1:2); Vemos a Jesus e o Pai distintos nos Salmos: Salmo 45:6-7 e também Sl 110:1-2 (versículos do qual Jesus citou em Mt 22:44);  Vemos também o Espírito e o Filho distinto do Pai em Is 63:7-10.

 

3ª afirmação: Se crermos na Trindade somos politeístas;

 

Resposta:

A isso, respondo que não! Segundo o dicionário de Oxford, o politeísmo é um sistema ou crença religiosa que admite mais de um deus. Ou seja, para sermos politeístas precisaríamos adorar a diversos deuses o que claramente não fazemos. A doutrina da Trindade não diz que existem 3  deuses distintos, diz que 1 Deus que é 3 pessoas distintas.

 

4ª afirmação: Jesus não era Deus na terra, mas lhe foi comunicado os atributos do Pai.

 

Resposta:

Segundo o pastor, Jesus seria o próprio Pai. Eu fiquei meio confuso com o que ele quis dizer. Discordo da afirmação que Jesus é o Pai e isso já foi demonstrado pelos versículos anteriores. Agora resta falar sobre se Jesus era ou não Deus na terra.

Como também vimos anteriormente, Jesus se auto declara Deus quando diz “antes que Abraão existisse, EU SOU”. Na Bíblia grega Nestle-Aland, edição 28, a palavra EU SOU é εγώ ειμί que significa, literalmente, EU SOU. Se formos na septuaginta (versão grega do antigo testamento, traduzida pelos Judeus na época veterotestamentaria, onde grande maioria dos judeus falava o grego), em Êxodo 3:14, onde Deus se encontra com Moisés na sarça ardente, foi traduzida a fala de Deus como εγώ ειμί ό ών, que significa, literalmente, EU SOU O QUE SOU!

Vemos, portanto, que Jesus diz que Ele é Eterno, pois Ele é o que é e é o que sempre foi. Esse  nome, do qual Jesus e o Pai se identificam, enfatiza a Eternidade e Imutabilidade de Deus. Portanto, quando Jesus declarou que É O QUE É, Ele disse que é o mesmo Deus da sarça ardente. Ele não disse que QUE ERA. ELE DISSE EU SOU. Se Jesus quisesse dizer que era Deus, e não o é mais, Ele falaria εγώ ήταν, que significa Eu era. E vemos que no versículo seguinte de Jo 8 que, os fariseus quiseram O apedrejar, pois para eles isso era blasfêmia, já que não O reconheciam como o Messias ou o próprio Deus. Se eles não achassem que Jesus estava atribuindo a divindade a Si, não iriam O querer apedrejar.

 

5ª afirmação: Jesus é o nome de Deus e não Javé (YWHW);

 

Resposta:

A isso, respondo que está correto, mas em parte, pois Deus não tem um nome específico. Ele se manifesta de diversas formas na história, onde Ele é identificado por diversos nomes, e esse nomes, Lhes são atribuídos pelos Seus atributos, por exemplo: El Shadday (אל שדיי ) Deus Todo Poderoso (Gn 28:3) ou Elohim sabaoth (אלהים סבאות) - Deus dos exércitos (1 Sm 17:44) e etc. Jesus é mais um nome de Deus, que significa “Javé salva”. Então, quando Cristo veio a terra encarnado, Ele veio mostrar o caráter ou o atributo salvador de Deus e isso não quer dizer que Jesus é o Pai. Isso quer dizer que Cristo, como Deus e 2ª pessoa da Trindade, veio mostrar o caráter Salvador de Javé (YWHW), não como um mero instrumento do Pai, como nós somos, mas como o próprio Javé. E, a isso, provamos posteriormente. Deus é 1 e são 3 pessoas em relacionamento mútuo. Jesus desce, o Pai não! (Mt 3:17).

 

6ª afirmação: Fora de Cristo não divindade (Cl 2:9);

 

Resposta:

Concordo que, em Cristo, habita toda a plenitude da divindade. O problema é que o pastor interpretou errado esse versículo. A palavra grega πλήρωμα, segundo o léxico grego-português Lown e Nida, significa uma “quantidade total com enfase no fato de ser completa”. O léxico traduz o versículo Cl 2:9 dessa forma: "pois a totalidade da natureza divina habita Nele (Cristo) em forma corporal”. Esse versículo não prova que só Jesus é Deus, mas que, além de ser Deus, Ele é Deus em carne de forma completa e total, ou seja, Ele é 100% Deus. O fato do apóstolo Paulo dizer que em Cristo habita toda a plenitude, não diz que só Jesus é Deus, pois no capítulo 1 e versículo 3 do mesmo livro o apóstolo fala que o Pai é Deus distinto do Filho.

  

7ª afirmação: Jo 14:9 foi usado para dizer que Jesus é o Pai;

 

Resposta:

O que não faz o menor sentido, no contexto imediato (contexto literário), pois o apóstolo João no capítulo 14 faz uma clara distinção de Cristo para o Pai. A distinção se encontra em: “não se turbe o vosso coração, credes em Deus E em TAMBÉM em mim. Na casa de MEU Pai há muitas moradas... (Jo 14:1-2)”; Em João 14: 6 temos “EU SOU (YWHW) o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai se não por mim (não está dizendo ninguém vai até mim se não for por mim); Filipe pergunta a Cristo para lhes mostrar o Pai e Jesus responde que quem O vê, vê o Pai, pois Jesus é a expressão exata do Seu ser (Hb 1:3) e não que Ele é o Pai. E depois Ele continua: "não vês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim?" (Jo 14:10). É eu estou e não EU SOU o Pai. Mais uma vez a distinção das pessoas da Trindade.

 

8ª afirmação: Se Jesus tivesse uma natureza divina, Ele não sentiria dor ou fome;

 

Resposta:

Isso é exatamente igual a heresia antiga do século V D.C., chamada Monofisismo, que sustentava que Cristo tinha 1 natureza. Essa, de fato, é uma questão bem complexa e misteriosa. Já vimos que Jesus é 100% Deus (Cl 2:9), agora falta vermos que Jesus é 100% Homem. Jesus nasceu de uma humana chamada Maria (Mt 1:25); Jesus possuía um corpo humano com limitações (Jo 4:6; Jo 19:28; Mt 4:2); após a ressurreição é mostrado que Jesus também tinha um corpo só que glorificado e aparentemente sem limitação alguma (Jo 21:4-14); Jesus também tinha uma alma humana (Jo 12:27; Mt 26:38); Jesus chorou no túmulo de Lázaro (Jo 11:35). Provado que Jesus tem tudo que um homem perfeito tinha, pois o homem perfeito não tinha pecado, temos que responder como fica a questão da fome e dor.

Reconheço que não entendo completamente como isso aconteceu, mas sei que aconteceu, pois a Escritura inspirada por Deus me diz (2 Tm 3:16), mas, daquilo que entendo, percebo que todas essas limitações, enquanto Ele estava no estado de humilhação - ou seja, sem estar glorificado - são da natureza humana, enquanto a divina está adormecida nesses casos. Creio que Jesus suprimiu a sua natureza divina para que sentisse na pele as fraquezas, dores e tentações. Jesus foi tentado pelo diabo, mas não pecou (Hb 4:15), não pecou pois não era passível de pecar por conta da Sua divindade, mas sentiu a tentação em Sua natureza humana pois também era plenamente homem.

Caso achem que um homem perfeito não pode ser tentado então estão redondamente enganados, afinal, Adão e Eva foram tentados e eles estavam ainda no estado perfeito. A Escritura não diz como isso aconteceu, mas diz que aconteceu. Nós, do século XXI temos um grave problema, que é tentar explicar tudo pela lógica, e isso vem do positivismo lógico do século XX. Não precisamos saber e explicar tudo, até porque estamos falando do Deus que é enorme em comparação a nós. Nesses casos, precisamos exercitar nossa e não ir numa busca desenfreada atrás de harmonização. Pros apóstolos e muitos homens durante os séculos isso não foi um problema. Deus não quis revelar tudo a nós e ponto, e elas pertencem a Ele (Dt 29:29).

 

9ª afirmação: Quando Deus Pai encarnou em Jesus o céu não ficou vazio, pois Deus é onipresente;

 

Resposta:

Eu não consegui direito entender essa afirmação, pois ela me parece ser contraditória as demais feitas, como: "Jesus não era 100% Deus, pois Seus principais atributos (Onisciência, Onipotência e Onipresença) não estavam Nele", mas eu vou tentar responder o que eu entendi.

Esse tipo de ideia sobre a Trindade é uma heresia antiga do século IV, chamada Modalismo ou Monarquismo, que dizia que havia só uma pessoa na deidade que se manifestava de 3 modos diferentes na história (uma hora como Pai, outra como Filho e outra como o Espírito).

Eu entendi que o Céu não ficou vazio. E eu concordo, pois Deus Pai ainda permaneceu lá, enquanto Deus Filho estava encarnado na Terra. Vemos isso no batismo de Jesus (Mt 3:13-17) e no encontro de Cristo com Moisés e Elias no monte da transfiguração (Mt 17:1-13). Vemos claramente que Jesus está na terra com os discípulos e o Pai nos Céus afirmando a Sua identidade, para os discípulos, como Enviado Dele.

Então, embora Deus seja Onipresente não quer dizer que Ele precisa usar todos os Seus atributos de uma vez a todo o momento. Deus manifesta sobre nós, Seus filhos, o seu Amor, mas não a Sua Ira no mesmo momento. E, mesmo assim, Ele permanece sendo um Deus amoroso e um Deus irado. Nada mudou de Seus atributos. Jesus, que também é Deus, Deus encarnado distinto da 1ª e 3ª pessoa da Trindade, também fez isso! Ele veio pra terra em humilhação (Fp 2:6-7), ou seja, Ele se tornou Homem; Ele já Era Deus (Fp 2:6) e encarnou num corpo humano, se esvaziando. E o esvaziar não aponta para o esvaziamento de Sua deidade, mas se esvaziando de glória e se tornando a aparência de homens, se tornando servo como os homens, e isso lhe foi humilhante, pois participa das fraquezas humanas (fora o pecado), como: dor, fome e necessidades fisiológicas em geral (defecar ou urinar). O contexto imediato, ou seja, contexto literário, indica que Jesus se humilhou se tornando homem nada a mais que isso! Os Seus atributos ainda estavam lá Nele (Cl 2:9), mas adormecidos podendo ser despertados a qualquer momento que quisesse, mas Ele tinha que passar por essa humilhação até a Sua volta para o Pai.

 

10ª afirmação: Jesus não fez nada por si, apenas pelo poder do Espírito Santo (Mt 12:28).

 

Resposta:

E eu concordo! Isso faz parte de sua humilhação se tornando servo. Mas isso não quer dizer que os atributos divinos foram abandonados na encarnação (Cl 2:9).

 

11ª afirmação: Um dos maiores motivos para os judeus não crerem em Jesus é a Trindade;

 

Resposta:

A isso, eu discordo plenamente. Para refutar, eu vou a um especialista do AT, John Goldingay, ele diz: "O NT foi auxiliado pelo fato de a articulação do pensamento cristão a respeito de Jesus ter ocorrido no contexto do pensamento judaico, segundo o qual existem "dois poderes no céu" - não o entendimento dualístico de poder bom e poder mal, mas a realidade de expressões semi-independentes de Deus. O próprio primeiro testamento combina afirmações fortes acerca da identidade exclusiva de Javé com outras declarações - a descrição da sabedoria de Deus como ser pessoal, distinguível de Deus (Pv 8:22-31) - que haviam sido encontradas em obras judaicas posteriores, como no livro da sabedoria e Eclesiástico e depois retomadas por Paulo (Cl 1 - 2).

Assim muitos pensadores judaicos pareciam se sentir confortáveis em entender a sabedoria de Deus como uma quase-pessoa, semi-independente de Deus, e Paulo parecia pensar nesses termos antes de Jesus confronta-lo. Tal fluidez no entendimento bíblico judaico a respeito de Deus significa que a doutrina da Trindade não precisa, por si só, criar problemas para um judeu. A razão pela qual um judeu pode não ser capaz de tornar-se cristão é que o judaísmo considera Jesus alguém cuja reivindicação messiânica é falsa. Para o judeu, Jesus não cumpriu as promessas de Javé relacionadas ao Ungido (razão pelas quais que Jesus precisa retornar). Vemos, então, que o problema não é a Trindade.

 

12ª afirmação: A Trindade é heresia e pode comprometer a salvação;

 

Resposta:

Discordo piamente. Se for heresia, então a Igreja, desde os apóstolos, estão no inferno, pois eles criam nisso piamente e morriam por essa verdade, bem como os pais da Igreja, como Inácio de Antioquia,  Clemente de Roma (andava com os apóstolos), Policarpo, Hermas, e Pápias e etc. Vejamos o que eles tem a dizer:

 

Como Deus vive, assim vive o Senhor e o Espírito Santo.

Clemente de Roma, 96 D.C., carta aos Coríntios 46.6

 

No que diz respeito ao Batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente. Se não houver água corrente, batizai em outra água; se não puder batizar em água fria, façai com água quente. Na falta de uma ou outra, derramai três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo

Autor desconhecido, ano 90, Didaqué 7,1-3

 

Que não somos ateus, quem estiver em são juízo não o dirá, pois cultuamos o Criador deste universo, do qual dizemos, conforme nos ensinaram, que não tem necessidade de sangue, libações ou incenso. [...] Em seguida, demonstramos que, com razão, honramos também Jesus Cristo, que foi nosso Mestre nessas coisas e para isso nasceu, o mesmo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, procurador na Judéia no tempo de Tibério César. Aprendemos que ele é o Filho do próprio Deus verdadeiro, e o colocamos em segundo lugar, assim como o Espírito profético, que pomos no terceiro. De fato, tacham-nos de loucos, dizendo que damos o segundo lugar a um homem crucificado, depois do Deus imutável, aquele que existe desde sempre e criou o universo. É que ignoram o mistério que existe nisso e, por isso, vos exortamos que presteis atenção quando o expomos.»

Justino Mártir, ano 151, I Apologia 13,1.3-6)

 

Com efeito, a Igreja espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra recebeu dos apóstolos e seus discípulos a em um Deus, Pai onipotente, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto nele existe; em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para nossa salvação; e no Espírito Santo que, pelos profetas, anunciou a economia de Deus...»

Ireneu de Lião, ano 189, Contra as Heresias I,10,1).

 

Como provamos a Trindade é proclamada por TODA a Bíblia e agora mostro que desde o período apostólico até hoje se crê nessa doutrina.

 

13ª afirmação: Toda a vez que aparecia Deus Pai no AT os judeus criam que era o Espírito Santo;

 

Resposta:

Não há um versículo Bíblico que diz isso ou infere tal doutrina e não conheço um judeu que  fale isso.

 

14ª afirmação: As palavras são escolhidas de acordo com o contexto e a melhor tradução para a palavra λόγος em Jo 1 é sabedoria;

 

Resposta:

Concordo que a tradução do grego seja pelo contexto, mas a melhor tradução para λόγος não é sabedoria. No léxico, dicionário de línguas antigas, Louw e Nida grego-português (melhor léxico em português e em outras línguas), não existe a possibilidade de fazer a palavra λόγος ser sabedoria. Existem 13 significados possíveis. Todos se referindo ao verbo falar (λέγω), e a palavra mais condizente com o contexto de Jo 1 é a que aparece no domínio semântico 30.100, e o léxico, sobre a palavra λόγος, diz: um título de Jesus no Evangelho de João usado como uma referência ao conteúdo da revelação de Deus e como um eco verbal do uso dos verbos que significam dizer em Gn 1 e em muitos anúncios dos profetas - "Palavra, Mensagem". Eles traduzem o v.14 de João 1 assim: "a Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós."

 

15ª afirmação: Deus tem sede de ser amado. O Pai encarnou no Filho para ser amado pelos homens e para criar um relacionamento de amor com a Sua criatura;

 

Resposta:

Primeiro: Deus não tem sede de ser amado. Muito menos sede de ser amado pela Sua criatura. Deus é auto suficiente; Ele não precisa de nada e nem de ninguém para absolutamente nada. Se Ele assim quisesse, faria tudo sozinho; porém, aprouve ao Senhor nos dar o privilégio de sermos participantes de Sua gloriosa obra e história. Versículos que sustentam a auto suficiência de Deus são:

 

·         Êxodo 3:14 – Deus se declara como o EU SOU O QUE SOU. Ele deixa claro a Sua Eternidade bem como a sua auto suficiência. Ele é aquilo que sempre foi e sempre será o mesmo. Ele não  muda, não se surpreende, não precisa de nada e nem de ninguém.

·         At 17:24-25 – Neste versículo o apóstolo Paulo deixa de forma clara e enfática de que Deus não precisa de nada e nem de ninguém. O apóstolo diz que Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas, nem é servido por mãos homens, como se Ele precisasse de algo, pois é Ele que dá a vida a todos, respiração a todos e tudo o mais. O versículo fala por si mesmo.

 

Acredito que já entenderam o ponto. Dito isso, falarei do porquê o Filho encarnou. Ele encarnou para fazer a vontade de nosso Pai (Jo 4:34). Jesus veio para cumprir a vontade do Pai. Jesus nos amou vindo ao mundo? Sim, mas o principal foco da vinda de Cristo era fazer a vontade de Seu Pai para que os cristãos pudessem ter vida a partir de Seu sacrifício na Cruz do calvário.

 

16ª afirmação: Jesus quando foi glorificado não tinha mais corpo físico;

 

Resposta:

Crer nisto é um tanto absurdo, pois há uma heresia bem antiga do século II, chamada Docetismo, do qual diz que Jesus não tinha corpo fisico, mas Ele seria um tipo de fantasma. E sobre esse assunto acredito que as Escrituras deixam claro. Vamos a alguns textos:

 

·         Atos 1:3-4 – estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus. E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes.

·         Jo 20:26-29 – Passados oito dias, estavam outra vez ali reunidos os seus discípulos, e Tomé, com eles. Estando as portas trancadas, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco! E logo disse a Tomé: Põe aqui o dedo e as minhas mãos; chega também a mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente. Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.

 

Ainda há mais textos sobre Jesus permanecendo Homem após a ressurreição. Depois de apresentar somente esses 2 testemunhos da Bíblia acredito que esse assunto está bem claro para os irmãos.

 

 Considerações finais:

 

Bom, irmãos! Acredito que não tenho muito mais a falar. Citei alguns versículos, alguns homens de Deus, mas o testemunho Trinitário é infinito! Grande demais para caber em tão poucas páginas e em uma mente tão diminuta. Posso dizer que conhecer a Deus me encanta, me assombra e me faz ficar seguro; Me encanta, pois eu olho pra algo belo; me assombra, pois eu olho para algo belo que eu não compreendo, e embora eu não compreenda me traz paz; Me traz paz e me faz me sentir seguro, pois eu tenho um Deus que não cabe em minha caixa, ou seja, Ele não é pequeno demais para caber em minha mente, mas grande demais pra me deixar perplexo, e poderoso demais para poder fazer todas as coisas.

Eu tenho um Deus onde 1 = 3 e 3 = 1 e meu coração exulta em conhecê-Lo e se alegra demais por ser amado por esse maravilhoso e magnífico Deus. Ele é o que é! E nesse momento me lembro daquilo que o apóstolo Paulo escreveu e que ecoa até hoje:

 

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”

Rm 11:33-36.


Miguel Guimarães
@miguel_guimarj



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