O Verdadeiro Pastor: uma breve reflexão no Salmo 23:1-4
Os salmos são uma coleção de 150 poemas líricos, divididos em cinco livros, inspirados por Deus (2 Tm 3.16), com vários escritores — sendo o mais proeminente o rei Davi — e que, sendo canções, expressavam vários sentimentos, que iam, desde o desespero de uma morte a espreita, a alegria da libertação, da confissão de pecados a exaltação a Deus pelas suas obras. O povo de Israel usava os salmos em seus cultos como nós também o fazemos hoje. Especificamente, hoje falaremos sobre o Salmo 23, um dos salmos mais conhecidos, composto por Davi. É um salmo onde o salmista expressa a sua confiança no cuidado do Senhor. Vamos ao texto?
O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.
Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
Reflexão:
O versículo 1 é iniciado com uma afirmação: O Senhor é meu pastor. Davi era um pastor de ovelhas e, com propriedade, poderia falar sobre isto, analisando a relação entre o Senhor e o seu povo.
Por mais que devamos olhar para este termo imaginando um pastor de ovelhas — o que falaremos mais a partir do versículo 2 — não podemos olhar para este termo, pastor, somente desta forma. Não somente para o contexto de Israel — incluindo o período em que Davi escreveu este salmo — mas para todo o antigo Oriente Médio, o termo “pastor” se referia a uma metáfora usada para um governante. Os povos antigos empregavam o termo pastor para falar a respeito de seus reis.
Logo, quando Davi usa o termo pastor, ele, Davi, o rei de Israel, indica que o Senhor é seu pastor, ou seja, o verdadeiro Rei, a verdadeira autoridade que possui domínio, poder, riqueza, honra e sabedoria, acima dos seus. O Senhor é referido como pastor em outros momentos da escritura (Gn 48.15, Sl 28.9) e Ele não é pastor apenas do povo, como um todo, mas de cada indivíduo que se sujeita ao seu pastoreio, a sua autoridade.
E, diante deste pastoreio, desta autoridade, o salmista afirma categoricamente: nada me faltará. A segurança do Salmista, em saber que o Senhor era o seu pastor, a sua autoridade suprema, lhe dava a segurança de que nada lhe faltaria. Um reinado humano pode ruir, desde que haja condições desfavoráveis para a manutenção deste reinado e, quando há a queda de um reino, há insegurança, violência, fome, desespero, pavor.
Davi, crendo e sustentando o Senhor como o seu pastor, confia que Ele suprirá todas as suas necessidades, cada qual a seu tempo, pois sabe que o reinado do Senhor é eterno e não tem fim. Sabia que Deus não depende de ninguém e podia fazer tudo o que quiser. Sabia que o Senhor já tinha sustentado o seu povo no passado, dando-lhe provisão no deserto, no caminho a terra prometida. Portanto, tendo a certeza de que o Senhor era o seu pastor, ele sabia que não lhe faltaria o que precisava para continuar debaixo do reinado do seu Senhor. É confiando na autoridade, no governo e na soberania de Deus que Davi sabe que não lhe faltaria o que precisava, pois tudo lhe seria acrescentado conforme a soberania excelsa do supremo pastor.
Nos versículo 2 e 3, vemos o que este pastor, o Senhor, faz com aqueles que se submetem ao seu pastoreio e todos os atos realizados aqui estão em voz passiva. O pastor é quem faz e a ovelha é quem recebe.
O motivo é que, como as ovelhas, nós não podemos fazer nada por nós mesmos. Somos totalmente dependentes de Deus. Antes de sermos resgatados por Ele, nós caminhávamos totalmente rumo a destruição. É Ele quem nos coloca no caminho correto e quem nos regasta deste caminho de destruição. Nós, por nós mesmos, não podemos fazer isso. As associações entre a figura da ovelha e o pastor nos trazem um pouco mais do cuidado de Deus para com suas ovelhas:
Faz repousar em pastos verdejantes e me conduz as águas tranquilas (v. 2): Como pastor de ovelhas, Davi sabia que, após satisfeitas, as ovelhas costumam repousar e, além disso, as ovelhas não bebem água de correntezas fortes. No versículo 1, nós temos a necessidade das ovelhas sendo supridas pelo pastor e, após o suprimento destas necessidades, neste versículo 2, o próprio pastor conduzindo, mostrando onde elas deveriam repousar e não sentirem sede. A ovelha confia plenamente no cuidado do pastor, pois é ele quem a alimenta, quem a faz descansar e quem não a deixa sentir sede.
Refrigera a alma; guia-me pelas veredas da justiça (v. 3): através das próprias ações ditas no versículo anterior (alimento, descanso e saciedade), o Salmista argumenta que tem sua alma restaurada, refrigerada, renovada. Além disso, ele diz ainda que este pastor, o Senhor, o guia na verdade, no caminho da justiça. No contexto da relação ovelha e pastor, temos a ovelha que é levada a caminhos seguros, livres de perigo.
Em ambos os versículos, nós vemos que o pastor conhece a necessidade das suas ovelhas e sabe o que é melhor para elas. O Senhor nos mostra que é nEle:
Temos as nossas necessidades supridas;
Encontramos descanso;
Somos revigorados, renovados;
Somos instruídos no caminho da verdade, que livra do mal;
Tudo é Ele quem faz e opera em nós e por nós, tudo através de Sua Palavra. É Ele quem supre nossas necessidades pela Palavra — sendo a maior delas, a necessidade de ser salvo da ira de Deus; é em sua Palavra, que encontramos alento, descanso; É sua Palavra que nos revigora e nos instruí no caminho da verdade e, da mesma forma que a ovelha, por receber tudo de seu pastor, tem confiança nele, nós podemos ter confiança no Senhor.
Essa confiança vem exatamente de entender que é Ele quem é o pastor, que Ele é quem é a autoridade e, como diz ainda o versículo 3, que Ele garante tudo isto por amor do seu nome. Davi aponta que o próprio nome — a presença invocada do Senhor — era a garantia de que ele, Davi, poderia descansar no Senhor, pois, diferente de qualquer relacionamento humano, o relacionamento com o Senhor não possui falhas da parte dEle, pois Ele não é como nós, que mentimos e nos arrependemos. Podemos ter confiança e segurança no Senhor, pois a Ele é justo, Sua Palavra é eterna e infalível e é Ele quem governa sobre tudo.
Tudo isto, inspira a certeza do Salmista no versículo 4 de que ele não teria mal algum, ainda que ele andasse pelo “vale da sombra da morte”, que pode ser identificado como qualquer situação perigo para as ovelhas. O motivo? Porque o bordão (vara) e o cajado do Senhor o consolavam. Ambos eram instrumentos de proteção (vara) e direção (cajado), que impediam que a ovelha, mesmo diante dos maiores perigos, de trilhar fora dos caminhos. O Senhor é o nosso pastor que nos sustenta no Seu caminho e nos impede de trilharmos longe de Sua presença. É Ele quem nos persevera em sua palavra. Ainda que a ovelha possa se machucar pelo caminho, devido aos seus próprios erros, ela pertence ao pastor, que não permitirá que Ela se perca eternamente no vale da sombra da morte.
É o Senhor, o pastor que nos sustenta, nos guia, nos cuida, nos guarda. Quanto mais buscamos estreitar este relacionamento com o Senhor — através da leitura da palavra, da oração, da comunhão dos santos — mais percebermos o quanto Ele está no controle de Deus e mais temos confiança nEle. Não há como termos confiança em que não conhecemos. Nós o conhecemos um dia, quando Ele se revelou a nós e conhecemos a sua obra de salvação através de Sua Palavra. Mas, não somente isto. Ele nos guia na vereda da justiça. É dia-a-dia que prosseguimos no processo de santificação, em vida de piedade, de devoção, dando a Ele a honra e a glória que lhe são devidas. Comumente, diante de uma sociedade perversa, somos levados a acreditar que temos o controle sobre as coisas. Quando perdemos este controle, nos desesperamos. Porém, aquele que tem o Senhor como o seu pastor, como a autoridade suprema sobre a sua vida, sabe que Ele lhe suprirá as necessidades conforme o Seu querer e que isto lhe basta; este sabe que o Senhor será o seu descanso e que a certeza e a segurança, de que o Senhor zela por cumprir a Sua Palavra, lhe garantirão paz, pois sabe que nada foge do controle soberano de Deus, que reina sobre tudo e todos eternamente.
Que você, que tem o Senhor como o seu pastor, possa, de fato, reconhecê-lo como seu pastor:
Reconhecendo a autoridade que Ele possui, não só sobre a sua vida, mas sobre tudo e todos;
Reconhecendo a sua dependência em tudo, pois você não pode fazer nada sem Ele;
Reconhecendo que é Ele quem te livra do caminho mal, do vale da sombra da morte, pois foi Ele quem te resgatou.
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