Um reflexão em Mateus 20:20-28
Jesus já havia iniciado a sua ida para Jerusalém, onde seria morto e crucificado. Durante este trajeto, ele faz diversos ensinamentos a respeito dos mais variados assuntos, conforme o que pode ser visto nos capítulos 19 e início do capítulo 20, onde este ensinamento encerra a série de oito ensinamentos feitos por Jesus ao longo dos dois capítulos, sendo os outros:
Capítulo 19:
Sobre o divórcio (1-10);
Sobre o celibato (11-12);
Sobre as crianças (13-15);
Sobre entrega (16-22);
Sobre quem pode ser salvo (23-30);
Capítulo 20:
Sobre igualdade no reino (1-16);
Sobre sua morte (17-19);
Sobre a verdadeira grandeza (20-28);
Prestes a subir para Jerusalém e, após predizer a sua morte pela terceira vez — Jesus o faz quatro vezes — ele recebe um pedido inusitado onde, através desse pedido inusitado, os presentes naquele momento — bem como nós mesmos — aprenderíamos uma grande e importante lição, sobre a verdadeira grandeza. Vamos ao texto?
Então se aproximou de Jesus a mulher de Zebedeu, com seus filhos, e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
Jesus lhe perguntou: — O que você quer? Ela respondeu: — Mande que, no seu reino, estes meus dois filhos se assentem um à sua direita e o outro à sua esquerda.
Mas Jesus disse: — Vocês não sabem o que estão pedindo. Será que podem beber o cálice que eu estou para beber? Eles responderam: — Podemos.
Então Jesus lhes disse: — Vocês beberão o meu cálice. Quanto a sentar à minha direita e à minha esquerda, não me compete concedê-lo, pois é para aqueles a quem está preparado por meu Pai.
Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram indignados com os dois irmãos.
Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: — Vocês sabem que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.
Mas entre vocês não será assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros;
e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de vocês;
tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
No versículo 20, vemos que, logo após Jesus predizer sua morte, a mãe dos filhos de Zebedeu, Tiago e João, junto deles, pede um favor a Jesus. Mas, antes de pedir este favor, ela o adora (ou se prostra). Após esta atitude, comumente identificada como um ato de reverência e adoração a Deus, neste caso, o reconhecimento de que Jesus o Messias prometido, ela faz o pedido, no versículo 21, após o questionamento de Jesus sobre o desejo dela: que seus filhos se assentassem à direita e à esquerda de Jesus, no seu reino, que seriam as mais altas posições de honra, conferidas a pessoas de alto grau e importância. Dois detalhes são importantes ser observados aqui, que poderiam ter levado a mãe deles a terem feito este pedido:
A primazia de Pedro, Tiago e João frente aos demais discípulos;
O reino de Jesus mencionado no capítulo 19;
Tiago e João, com Pedro, faziam parte do círculo mais íntimo de Jesus, sendo que estes três estiveram presentes na transfiguração de Jesus presente no capítulo 17. Pouco tempo depois, Pedro é repreendido pelo Senhor, no capítulo 16. No capítulo 19, versículo 28, Jesus diz que seus doze discípulos iriam se assentar sobre doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. Diante de um provável reinado e de uma repreensão do Senhor a Pedro, Tiago e João buscaram obter as melhores posições, uma vez que não receberam a mesma repreensão de Pedro — não de maneira direta — e faziam parte do grupo mais chegado a Jesus. Porém, isso não era algo exclusivo de Tiago e João, mas de todos os discípulos, pois em vários momentos eles almejavam a maior posição e de mais destaque. O que Tiago, João e sua mãe não contavam é que não compreenderam o que Jesus quis dizer sobre o seu reino, que não é deste mundo e não funciona como o reino deste mundo funciona.
Diante da indagação desta mãe, Jesus diz que eles não sabem o que pedem. Jesus acabou de dizer, pela terceira vez, que seria morto e os discípulos não estão preocupados com a morte de Jesus, mas com os benefícios que Jesus poderia lhes trazer. Além disso, Jesus havia acabado de contar uma parábola mostrando que Deus é livre para fazer o que ele quiser e que de maneira quiser, independente do que façamos para ele ou o quanto nos esforcemos. A escolha é dele. Jesus ainda pergunta se eles estariam dispostos a beber o cálice que ele beberia, obtendo um sim como resposta. O cálice, linguagem muito presente no antigo testamento como benção ou maldição, é comumente apresentado aqui de duas formas: como o sofrimento e como a Ira de Deus. Cristo sofreria e receberia a punição pelos pecados daquele que creem. Os discípulos sofreriam, mas, pelos pecados que foram imputados a Cristo, provenientes da Ira de Deus, seriam justificados pela justiça de Cristo. Por isto Jesus diz que eles dois beberiam do cálice: passariam pelo sofrimento, mas seriam justificados, pela justiça que há nele. Tiago morreu, sendo o primeiro mártir dos apóstolos (Atos 12.2) e João sofreu perseguição e exílio (Ap 1.9). Serem justificados por Cristo não impediu de beberem do cálice e de passarem pelo sofrimento, nem da ira, porém a ira foi aplacada mediante o sacrifício de Cristo. Cristo fala ainda que não lhe competia conceder os lugares de honra. Era uma escolha de Deus e, portanto, eles deveriam submeter a vontade deles, quanto ao futuro, a Deus, não com esperança de que Deus lhes concedesse o que queriam, mas que a vontade dele fosse cumprida, o que ele, de fato, faria. A escolha de quem sentaria nas melhores posições não seria baseada em méritos humanos, mas tão só e somente na escolha e vontade de Deus.
Ao ouvirem isso, ou seja, o pedido da mãe de Tiago e João para que eles tivessem um lugar de honra maior, os demais discípulos ficaram indignados. Num primeiro momento, poderíamos entender a indignação como “isso é pergunta que se faz para o mestre? Nós devemos ser humildes!”. Mas a indignação é demonstrada através de um descontentamento e inveja, provavelmente por acharem que, num momento oportuno, tentaram convencer o Senhor a lhes dar uma vantagem maior. Tanto que, diante da atitude dos demais discípulos, Jesus ensina uma grande e importante lição. Se houvesse oportunidade, provavelmente, a exemplo do que já havia acontecido antes e de um quadro que se repetiria na última ceia, eles fariam o mesmo questionamento a Jesus, buscando se exaltarem.
Jesus, então, ensina que, diferente dos reinos desta terra, onde aqueles que possuem poder exercem autoridade sobre o outro porque lhes foi outorgado autoridade, aqueles que querem ser grandes, se exaltarem, devem servir, devem servir. Este ensinamento está de acordo com o que foi dito e o que foi feito pelo próprio Jesus. Ele é o nosso maior exemplo. Sendo Deus, ele mesmo se humilhou, assumindo forma de homem e morrendo na cruz. Como diz o versículo 28, ele veio para dar a sua vida em resgate por muitos. Este resgate, lutron, no grego, é geralmente utilizado para falar sobre o dinheiro pago para libertar escravos. Os discípulos e nós éramos escravos do pecado. O pagamento não foi feito ao diabo, mas a Deus, para satisfação da sua ira e justiça quanto ao pecado. A preposição “por”, que é o termo grego anti, usado para falar que ele morreu por muitos, indica que ele morreu “no lugar de”, ou seja, no lugar de muitos. Ele nos substituiu, tomou o lugar que deveria ser nosso e somente nosso. Somente ele poderia pagar o preço que foi pago, pois era o único sem pecado, que desfez a inimizade que estava sobre nós, nos reconciliando com Deus, mas nós que deveríamos, mas não poderíamos, pagar este preço. Jesus dá a sua vida em resgate de muitos, daqueles que nele creem, com a fé dada pelo próprio Deus para creem nele. O maior exemplo de servidão está em Jesus, de entregar a sua vida pelo outro.
Aplicações:
Muitas vezes adoramos, nos colocamos diante de Jesus porque queremos alguma coisa para a nossa própria glória. A esposa de Zebedeu o adorou e, logo em seguida, fez um pedido que não deveria corresponder a sua devoção. Nós também fazemos isso e isso não quer dizer que não o reconheçamos como Messias, que não o consideramos como nosso Salvador, mas sim que nossas motivações em adorá-lo estão erradas. E se, de fato estão, precisamos nos colocar diante do Senhor, em sinceridade, para que busquemos a vontade dele e não a nossa e que o adoremos por motivos corretos, não baseados nos nossos próprios interesses.
É comum querermos ouvir apenas o que nos interessa. Os discípulos ouviram Jesus falar sobre os tronos em que eles assentariam e, mesmo com a parábola dita e com a informação da morte de Jesus, o foco estava nisso. Que possamos mudar nosso, não para ouvir o que nos interessa, mas o que é realmente importante. Não apenas isso, mas devemos pedir a Deus para escrutinar, sondar o nosso coração e nos mostrar os nossos caminhos errados. Muitas atitudes “cristãs” que temos são motivadas por interesses pessoais e egoístas. O regenerado buscar se arrepender dos seus pecados e viver uma vida que agrade o seu Senhor.
Os discípulos, após a morte de Jesus, beberam do cálice que Jesus bebeu. Todos sofreram grandemente, mas também foram salvos da ira de Deus, pela justiça de Jesus. Que saibamos que nenhum sofrimento é maior que a graça derramada sobre nós e que nos garante a salvação a ser relevada no último dia (1 Pe 1).
Jesus foi o maior exemplo de servo, como está escrito em Filipenses 2. Ele se humilhou e se entregou, sendo exaltado. Jesus disse que aquele que ser ser grande, precisa servir. Mas qual é a nossa motivação para o serviço? Buscar a grandeza ou obedecer, em amor e alegria, o Deus que nos salvou? O regenerado busca viver para agradá-lo, por amor, a ele, sabendo que sua maior recompensa é a presença constante, na terra ou no céu, do Senhor na sua vida e entende que, nenhum sacrifício que ele faz nesta terra, será maior que o sacrifício que o seu Senhor pagou na cruz.
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