Um reflexão em Mateus 18:6-9

 Jesus, diante do questionamento de quem era maior no reino dos céus, levou os seus discípulos, através do exemplo de uma criança, a entenderem a necessidade de se humilharem, reconhecendo sua vulnerabilidade, sua incapacidade de conseguirem fazer algo sem ajuda e a necessidade de se confiar no Pai. Logo, Jesus indica que todos os seus discípulos são e devem ser como crianças, como pequeninos. A partir daqui, Jesus muda o foco do Reino dos Céus para os tropeços que poderiam levar esses pequeninos, seus discípulos, a pecarem e a seriedade e severidade com que essas pessoas seriam tratadas. Vamos ao texto?


— E, se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor para esse que uma grande pedra de moinho fosse pendurada ao seu pescoço e fosse afogado na profundeza do mar.

— Ai do mundo por causa das pedras de tropeço! Porque é inevitável que elas existam, mas ai de quem é responsável por elas!

— Se a sua mão ou o seu pé leva você a tropeçar, corte-o e jogue fora; pois é melhor você entrar na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, ser lançado no fogo eterno.

E, se um dos seus olhos leva você a tropeçar, arranque-o e jogue fora; pois é melhor você entrar na vida com um só dos seus olhos do que, tendo os dois, ser lançado no inferno de fogo.

Mateus 18:6-9


Reflexão:


Jesus, nos versículos anteriores ao versículo 6, muda o foco da criança natural para a criança espiritual, que seria aquele que nele cresse e que está sempre aprendendo e buscando aprender. Os pequeninos, no versículo 6, não se tratam das crianças em si, mas de seus discípulos, crianças espirituais, que precisam do cuidado, orientação e auxílio do próprio Jesus para sobreviver. E Jesus diz que, se alguém fizer um destes pequeninos, destes seus seguidores tropeçarem, seria melhor que uma grande pedra de moinho fosse pendurada ao seu pescoço e fosse afogado na profundeza do mar. A pedra de moinho também era conhecida como pedra de asno, era a pedra arredondada, superior de um moinho, usada para moer grãos que era diferente de uma pedra menor usada para moer grãos manualmente. Esta pedra era tão grande que só poderia ser movida por um burro, um asno, um jumento, daí o nome de pedra de asno. Ou seja, é melhor você ter essa pedra presa ao seu pescoço e ser jogado no fundo do mar do que levar um seguidor de Jesus a pecar. A seriedade é tão grande que o exemplo usado por Jesus, provavelmente, causou espanto nos seus discípulos, que eram judeus, porque morrer por afogamento era um modo terrível de morrer na mentalidade dos judeus do primeiro século. Primeiro, porque não eram dados à navegação. Segundo, porque a morte com pedra de moinho era algo praticado pelos gentios e repulsivo aos judeus. Jesus trouxe àquele povo a seriedade do que era levar um dos discípulos dele a tropeçarem. Sobre este termo tropeçar, encontrado tanto na NAA, quanto na ARA, outras versões vão usar o termo ofender (KJV), cair em pecado (NVT) ou escandalizar (ARC, ACF). O termo grego para esta palavra é skandalidzo que significa tropeçar, capturar em armadilha, provocar uma queda, atrair ao pecado. Neste versículo 6, bem como nos versículos 8 e 9, tem, principalmente, o sentido de conduzir ao pecado, provocar uma ofensa, ser uma pedra de tropeço ou ocasião para o pecado dos outros. É importante ressaltar a necessidade de conhecermos o sentido da palavra no grego e de verificarmos outras traduções pois, se apenas nos atentamos ao sentido da palavra escândalo, encontrada nos dicionários em língua portuguesa, trataremos apenas da questão moral aliada a palavra, não ao sentido espiritual, que é o que texto quer dizer. A punição, para quem levar um discípulo de Jesus a pecar, era algo pior do que uma morte horrenda e Jesus quis deixar isso claro. E este destino será tratado nos versículos 8 e 9.


No versículo 7, Jesus continua seu discurso com um "Ai." "Ai” é uma expressão encontrada tanto no antigo como no novo testamento. No AT, possui vários empregos, entre os quais eu gostaria de destacar: aflição (Provérbios 23.29), desespero (1 Samuel 4:7), lamentação (1 Reis 13:30), insatisfação (Isaías 1:4), dor (Jeremias 10:19), ameaça (Ezequiel 16:23) ou atrair atenção (Isaías 55.1). No NT, frequentemente expressa tristeza compassiva, mais do que condenação em si. Isso nos mostra que a repreensão de Jesus não é no sentido de condenar, mas sim de advertir ao arrependimento. Porém, mesmo com esta advertência, Jesus afirma que haverá pedras de tropeço. O termo é diferente do termo utilizado no versículo 6. Aqui, ao invés de skandalidzo (verbo), temos skandalon (substantivo). O termo é um substantivo que significa aquilo que arma a cilada em que a isca é colada e que, quando tocado pelo animal, se move e faz com que a cilada se feche, causando o aprisionamento do animal. No novo testamento, é usado de maneira figurada para pedra de tropeço, crime, ofensa, tendo neste texto, o sentido principal de causa ou oportunidade para pecar ou se afastar da verdade. Jesus disse que é inevitável que venham as ofensas, os escândalos, as pedras de tropeço, mas ai daquele que servir disto. O termo usado para a palavra skandalon mostra a ação intencional por trás de causar o escândalo, de levar o outro a pecar. Por causa da nossa depravação, é impossível que não haja pedras de tropeço, pessoas que vão levar outras a pecarem. Mas aquele que comete o pecado, aquele por quem o tropeço vem é inteiramente responsável pelo pecado cometido, seja intencional, ou não. É impossível que não haja escândalo porque o homem é pecador e vai pecar. Como apontado nos versículos anteriores e como veremos nos versículos posteriores, este escândalo, esta atitude de levar o outro pecar pode ser proveniente de outros (versículos 6 e 7) ou de nós mesmos (versículos 8 e 9). Precisamos entender a responsabilidade que temos, tanto para com a nossa saúde espiritual, como pela dos outros; não por causa do pecado que o outro comete arbitrariamente, mas pelo o pecado que o podemos levar a cometer. Uma má saúde espiritual leva a comportamentos que nos levarão a pecar, como levarão o outro a pecar e um coração, tomado por pecado, faz isso de maneira intencional, muitas vezes não reconhecendo o seu pecado. Esta jamais deve ser nossa atitude e, se for uma atitude corriqueira e não arrependida, são atitudes coerentes com o coração de uma pessoa que não foi regenerada. O ímpio buscará levar o cristão a pecar porque ele vive uma vida de tropeço. Devemos a todo custo evitarmos ser pedras de tropeço e, se o formos, devemos olhar para o “ai” de Jesus, que não é um de condenação, mas de convite ao arrependimento. O regenerado, se arrependerá e se consertará com Deus e/ou com seu irmão, ao que o ímpio, o não regenerado, é incapaz de fazer. 


Nos versículos, 8 e 9, Jesus apresenta uma linguaguem dura. O primeiro ponto a ser destacado aqui é que Jesus não está falando de maneira literal. Precisamos entender a seriedade e a severidade que levar o outro a pecar possui, o que Jesus vem demonstrando desde o versículo 6:


1) É melhor ter uma morte horrível e repulsiva do que levar o outro a pecar;

2) Haverá escândalos, mas “ai” daquele que o fizer; 


Toda a seriedade e severidade em relação a este comportamento vem sendo demonstrado desde o versículo 6. O mesmo grau de severidade aplicado àquele que levasse o outro a pecar era, aqui, aplicado àquele que levava a si mesmo a tropeçar, escandalizar, cair em pecado. Como já mencionado anteriormente, somos responsáveis pelo nosso pecado, seja cometido ao outro ou a nós mesmos. E o pecado deve ser combatido de maneira drástica. Jesus demonstrou esta mesma drasticidade no sermão, do monte, em Mateus 5.29. A automutilação (arrancar olhos, mãos e pés) não retiraria o pecado, pois se tratava de um problema interno, do coração e Jesus já havia dito isto nos capítulos 12 e 15 deste evangelho. Essa hipérbole, esse exagero intencional, era para demonstrar a seriedade do pecado. O ponto é que seria melhor perder um membro do corpo do que sofrer as consequências eternas provenientes do pecado. Seria melhor ter um morte horrenda e repulsiva do que sofrer as consequências eterna provenientes do pecado. Os judeus precisariam entender esta mensagem e ela fica clara, seja através do que Jesus já havia dito nos versículos anteriores, seja pelo fato de Jesus ter usado os termos inferno e fogo eterno. O motivo é que o termo grego para inferno é gehenna, um nome derivado do vale dos filhos de Hinon, próximo a Jerusalém. Neste vale, o lixo era queimado constantemente, de modo que o lugar passou a ser visto como uma metáfora para o fogo do inferno. A mensagem de Jesus era clara. Devemos nos afastar, evitar o pecado - seja aquele que cometemos a nós mesmos ou ao outro - a todo custo. A consequência para o pecado não arrependido é o inferno. Aqueles judeus precisavam crer em Jesus e em suas palavras. Eles precisavam, de fato, ser crianças, pequeninos, discípulos que criam no seu mestre e no que Ele diz. Nós precisamos crer em Cristo, crer na sua obra, nos seus méritos, na sua justiça, na sua salvação. Entendermos que não há nada que possamos fazer, absolutamente nada. Até mesmo a fé para crer nEle, vem dEle. Nossas atitudes, por mais drásticas que sejam, não são capazes de nos conferir nada. Dependemos, tão só e somente, da misericórdia e da graça de Deus. 


Aplicações:

1) Precisamos reconhecer a responsabilidade que temos pelos nossos atos. Ainda que influenciados pelo diabo, a responsabilidade pelo pecado é nossa e é nosso o erro, a ofensa cometida contra Deus.

2) Além de nós pecarmos, nós podemos levar os outros a pecarem. Ninguém está livre disto. Precisamos ter uma vida piedosa, de busca diária a Deus, através da oração e palavra para que possamos reconhecer e evitar este pecado e, se o cometermos, buscarmos nos arrepender diante de Deus e do próximo, ajudando o próximo na reparação deste pecado, se possível. Se possível porque há consequências tão graves para alguns pecados, que alguns se tornam irremediáveis.

3) Cristo pagou todos os nossos pecados na cruz. Mediante o seu sacrifício, morte e ressurreição, podemos ter vida nova com Deus e a certeza de que estaremos com o Senhor um dia. Sobre nós, não há mais a condenação do pecado, da culpa. Não mais há morte eterna, não há mais inferno. Nada do que façamos irá aumentar um pouco ou diminuir um pouco do amor de Deus por nós. Seu amor foi demonstrado por nós quando Ele enviou seu Filho para morrer em nosso lugar. Diante desta realidade, devemos viver uma vida de gratidão, de louvor a Ele, onde o arrependimento e a consciência de que somos pecadores, é algo constante em nossas vidas. Que possamos não ser pedras de tropeço, mas alicerces que permitam os outros a estarem mais próximos de Deus.


Um abraço,

Dodô Ramos

@dodosramos89

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